segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Geni e o Zepelim (sobre preconceito, quid pro cuo e interesse)

Olá! É inquestionável que Chico Buarque é um dos melhores (se não o melhor) compositor e músico brasileiro. Também é bem comum relacionarmos suas canções com críticas, que mostram principalmente um Brasil ditatorial e censurado. Mas o engraçado é que muitas de suas músicas foram interpretadas como críticas, sendo que ele escreveu sem nem pensar sobre, rs. Esse é o caso de "Juca".
No entando, hoje vou falar de uma de suas músicas mais geniais, Geni e o Zepelim. Sim, talvez não foi coincidência o Geni com o Genial, talvez o nome foi escolhido para mostrar o potencial da nossa protagonista. A música conta a história dessa Geni, que era namorada de todos os errantes. Sim, de todos. Ela "dava-se" para detentos, loucas, lazarentos, cegos, retirantes, moleques do internato .... E sofria altas consequências por isso, o povo da cidade adorava repetir: "Joga pedra na Geni/ joga bosta na Geni/ ela é feita para apanhar/ ela é boa para cuspir/ ela dá para qualquer um/ maldita Geni".
Só que um belo dia, apareceu na cidade um zepelim gigante - tipo uma avião de guerra - que destruiria toda a cidade, com a desculpa de livrar o mundo de tamanho horror que aquele povo representava. A cidade ficou desesperada, quando de repente e para surpresa geral, o capitão do zepelim teve uma ideia: deixaria a cidade em paz se Geni se deitasse com ele. Mais surpresa ainda, foi quando Geni não aceitou prontamente, pois escondia um segredo: só se deitava com os "animais". A cidade logo realizou verdadeiras procissões e prometeu tudo a Geni, afinal, quem quer dá algo em troca - aquele quid pro cuo de outro post e que nós, logo após as eleições, sabemos bem do que se trata. Ela acabou aceitando, salvou a cidade. Ao acordar, Geni finalmente sentiu a sensação de que tudo mudaria e finalmente ela seria aceita. Mas Chico não perde o realismo: a cidade logo começa a repetir o antigo bordão contra Geni.
A história retrata o puro interesse da população, que em um momento esculacha e no outro exalta; a hipocrisia, o cinismo, o preconceito e marginalização. Já li várias críticas sobre a música e vi várias interpretações: tem gente que diz que Geni era um travesti (a versão do Filme Ópera do Malandro), uns que a Geni é o Brasil e o Zepelim é os EUA - retratando todo colonialismo e exploração sofrida pelo Brasil-, outra que ela representa o machismo, uma prostituta, outra a homofobia. Para mim, a Geni é a forma de qualquer tipo de discriminação e mesmo a história sendo uma alegoria - com um exagero e imaginação - retrata bem o que acontece com todos que sofrem preconceito e a verdade é que o preconceito está tão impregnado em nós que ele não acontece só nas bandeiras mais populares - raça, sexualidade, religião -, mas em tudo. E é esse preconceito cego que faz a sociedade tirar tudo de alguém que - na música de forma bem irônica até - fazia tanto para a comunidade. A verdade é que o foco da crítica não é quem é a Geni, muito pelo contrário, ela é a vítima, o foco é quem e porque essa sociedade é tão destrutiva, cruel e hipócrita.

Também não poderia deixar de exaltar Chico pela genialidade dos arranjos musicais da música. O desenrolar da trama é acompanhado por um dedilhado leve e a história é praticamente falada, quase como uma conto antes de dormir. De repende, no refrão, o ritmo é bem mais forte, outras vozes aparecem e você realmente se sente na cena agitada jogando pedras na Geni.









Por Julia Cruvinel

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