segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Lixo extraordinário: de como a arte do lixão foi ao tapete vermelho

   Olá (: Esse post será sobre o documentário "Lixo extraordinário" que eu realmente indico. Ele é uma co-produção entre Brasil/Inglaterra e mostra o trabalho do artista plástico Vik Muniz - que é conhecido por tirar fotografias e recriá-las com objetos banais, tirando outra fotografia com o trabalho pronto; você pode conhecer a galeria dele clicando aqui. No documentário, o Vik sai de sua casa, nos EUA, e vai até o maior aterro sanitário do mundo: o aterro do Jardim Gramacho, no bairro periférico Duque de Caxias no Rio de Janeiro. Lá, ele monta um grupo com 7 catadores, que serão seus "modelos", e conhece um pouco da vida de cada um. As fotos serão tiradas no próprio aterro e depois, em um galpão, reproduzidas utilizando pequenos objetos que estavam no lixo, como em uma montagem. O resultado fica mais ou menos assim:

Fotografia original e fotografia "de lixo"

Galpão onde foram montadas as montagens
   No decorrer do longa, o trabalho fotográfico sai de foco e as questões pessoais dos "personagens" ganham destaque.
Ninguém escolhe ser catador de lixo, eles estão naquela situação - revolvendo, vivendo e até se alimentando em meio ao lixo, junto com urubus, ratos e o mau cheiro - porque não há oportunidade para eles. Fazendo isso, ainda trabalham dignamente, ao invés de entrar no tráfico de drogas, no crime ou na prostituição - fato inclusive citado pelos protagonistas.
É emocionante ver como mesmo naquela situação essas pessoas são de bem com a vida e reclamam tão pouco. Também, é triste ver como não existe auto-estima - principalmente nas mulheres - e como há falta de expectativa de vida ou de melhoria. Em um momento, um catador vê a câmera e diz "Filma nois aqui para o mundo animal". A cena poderia até gerar humor em outros momentos, mas nesse fica claro a degradação moral, social e humana à que essas pessoas estão submetidas, chegando a se compararem com animais.



   O filme nos faz refletir sobre até onde o mundo capitalista submete as pessoas para continuar seu ciclo competitivo; a sorte que nós temos e como, mesmo assim, reclamamos o tempo todo; e como uma pessoa ou um grupo pode sim mudar a realidade de muita gente. Explicando melhor essa última parte, o documentário foi um sucesso, ganhando vários prêmios - inclusive sendo indicado ao Oscar na categoria "Melhor documentário" em 2011 - e contribuiu para organizar a Associação dos catadores, afinal, todo o dinheiro arrecadado com a venda das fotografias foi revertido para a comunidade do lixão. Com a associação, várias melhorias na qualidade de trabalho dessa classe foram conquistadas e até um patrocínio da Coca-Cola foi fechado.
Outra coisa legal é que depois do sucesso, Vik não 'escondeu' seus modelos, muito pelo contrário, levou-os de black-tie para o tapete vermelho, para palestras - inclusive na Harvard - e lutou para condições mais dignas de vida para eles.


Foto do presidente da Associação, Tião Santos. Na foto há uma referência a Marat -
um dos líderes da Revolução Francesa que foi assassinado durante o banho.

Tião e Vik vendo o resultado

Realidade dos catadores
Produtora, Tião e Vik no tapete vermelho -
no detalhe, vestido "de lixo"

     Enfim, é um filme emocionante e que traz diversas discussões, deixando-nos com a sensação de "será que eu faço o bastante para ajudar?". E na verdade, será que nós fazemos o bastante? Fica a dica do documentário ;)






Por Julia Cruvinel

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